


Contra a Parede
Assim como “Closer – Perto demais” de Mike Nichols, o amor aqui é retratado de uma forma mais realista, que compete melhor com aquilo que nós vivenciamos nas nossas vidas. Mais do que isso, o amor é mais ou menos retratado como um ser mortal, como qualquer homem propício à vida e à morte. Ele nasce, vive e morre, assim como todos nós. Ao contrário da minha idealização platônica do amor, o filme o retrata de uma forma bem rechaçada, mas mesmo assim, eu realmente adorei.
O roteiro é protagonizado por dois personagens centrais, muito complexos e perturbados: Cahit (Birol Unel) e Sibel (Sibel Kikilli), duas pessoas turcas que vivem na em Hamburgo na Alemanha e tem alguns desvios de comportamento: ambos tentaram suicidar-se devido aos problemas que enfrentam – até a melhor forma de se matar é retratada neste filme. Enquanto Cahit sofre com a vida quase que absolutamente miserável, catando latinhas numa casa de shows para sobreviver (embora seu sonho fosse ser gerente da mesma), Sibel tenta fugir da opressão de sua família, principalmente de seu irmão super protetor. Cada um escolhe um jeito de tentar acabar com a vida: Cahit acelera o carro contra um muro e Sibel corta os pulsos freneticamente. O resultado? Nenhum dos dois morre e ambos vão parar na mesma clínica de reabilitação. Durante uma conversa de Cahit com um amigo, Sibel acaba descobrindo que ele também é turco e, logo em sua primeira conversa com ele, o pede em casamento! Um suposto casamento de fachada para poder escapar de sua família. Convencê-lo foi uma tarefa um tanto quanto árdua, mas ela conseguiu.
A cerimônia acontece embora os pais de Sibel não o achem o marido ideal e a história do casal começa a ser escrita. Eles vão morar na “casa” de Cahit, um quarto – bem – desarrumado, com pilhas e pilhas de louça em cima da pia, cigarros apagados no chão, roupas espalhas pela casa. Com a chegada de Sibel, tudo parece se ajeitar e assim, ele começa aos poucos a enxergar nela uma linda esposa. O sexo casual dela com todos os homens que lhe interessam começa a enciúma-lo; e ela também descobre seus ciúmes quando descobre que sua chefe é a amante de seu marido. Não seria nada de mais se o amor não estivesse nascendo. Finalmente quando achamos que o filme cairá numa grande história de amor intenso e água com açúcar, tudo muda e ai sim veremos cada personagem afundar em seus respectivos poços, num submundo tenebroso.
Fatih Akin, o diretor do filme que é um alemão de origem turca, realiza aqui um grande filme, em que cada ato do filme é estabelecido pela música que toca em cada instante anterior, na apresentação na cantora vestida de vermelho e os seis músicos. Uma película muito sensual e violenta às vezes, mas sempre com muito suspense e muito tragicômico. Realmente muito bom, merecido ganhador do Oscar europeu, desbancando “Má Educação” do Almodóvar e o “Mar Adentro” do Alejandro Amenábar. Observamos uma tendência dos filmes atuais, principalmente os europeus, que estão caracterizando demais a morte e seus efeitos, ou pelo menos a idéia da morte e a idéia que as pessoas têm sobre ela. É um tema que me interessa muito por sinal.

Mar Adentro
O que você faria se ficasse tetraplégico devido a algum acidente e não tivesse a mínima chance de se recuperar e voltar ao normal? Difícil saber, não?
Será que você se adaptaria com a sua nova vida, podendo mover apenas sua cabeça, seus olhos e sua boca? Será que sua dignidade se manteria intacta e você teria perspectivas de futuro?
Bem, todas essas perguntas são extremamente difíceis de serem respondidas, até mesmo pelo fato de não nos encontrarmos em tais condições. Mas é exatamente esta a vida que Ramón Sampedro (Javier Bardem) tem no filme Mar Adentro de Alejandro Amenábar (diretor do filme “Os Outros”), baseado numa história verídica.
Quando tinha apenas vinte anos, o jovem marinheiro de boa aparência e que já havia dado uma volta ao mundo se joga para um profundo mergulho que mudaria toda a sua vida. A profundidade da água que provinha do mar não era grande e com o alto salto de Ramón seu corpo mergulhou e foi de encontro ao chão, ocasionando na batida de sua a cabeça. Imerso nas águas, foi salvo por um amigo quando estava prestes a morrer afogado. Sorte? Não para Ramón.
Como ele desejava ter morrido naquele momento, afogado. Após o acidente sua vida mudou totalmente, e não seria possível não ser. Uma nova vida, seu corpo praticamente morto preso à cama da casa de seu irmão, sob os cuidados de sua cunhada Manuela e de seu sobrinho Javier. Muitos se acostumam com a idéia e com os fatos, outros como Ramón, não.
A morte se tornou sua obsessão constante, seu desejo maior e como ele mesmo afirmou, sua esposa e única “mulher”. E é um tanto quanto complicado para nós nos adaptarmos com essa idéia: aquele homem extremamente carismático, simpático e engraçado que nos vai conquistando a cada palavra está ali simplesmente porque quer morrer. Implora por essa redenção, pois já não encontra mais a dignidade que tinha antes do acidente: “Quando a vida nos tira a liberdade, não é mais vida”.
Após - 26 anos - deitado na cama, usando sua boca para segurar o lápis e escrever suas poesias e inventar diversas coisas para seu sobrinho e seu pai construírem, decidiu contratar uma advogada que sofria de uma doença degenerativa para poder ajudá-lo a conquistar o direito de eutanásia.
O filme mergulha em um “mix” de comédia, drama e romance envoltos nesse desejo de Ramón de poder conquistar legalmente a sua tão digna morte: “Viver é um direito, não uma obrigação”.
Indicado ao Oscar e franco favorito a levar a estatueta, o filme faz jus ao seu enorme sucesso. É um grande filme, talvez um dos melhores filmes de língua espanhola de todos os tempos. Vale muito e merece ser visto, até mesmo para levantar o questionamento referente à legalização da eutanásia (esse tema também aparece no filme “Menina de Ouro”) e o direito das pessoas de poderem viver e morrer.


Sede
Delírio inspirado no frenesi desesperado,
amor mutilado em corações despedaçados,
raiva afoita nos corpos estirados.
Sem piedade, na bocaina
enterrados.
Esta terra, poeira cósmica.
Planetas fora de sua órbita.
Sol que exala sua derradeira
majestade.
O ódio é o cetro
que ordena, extermina
homens e touros indomáveis
ali no chão, a céu aberto.
Sangue que segue, torna-se oceano.
Macula o horizonte esbelto
dos céus ora imaculados.
da solidão do deserto.
Vida e morte em vermelho,
vermelho das anáguas no permeio.
Cactos refletem homens no espelho,
espelho dos olhos que vêem ensejo;
motivos para a vida.