



Janelas
Janelas de vidro, de palha,
janelas de brilho, sem nada;
por onde passam estrelas
e também canhões.
Durante a guerra, meninos chorões
enxergam lágrimas, talvez esperança,
enxergam toda a sua morta vizinhança
mutilada com o bélico armamento
que destruiu nossas janelas de palha
e espatifou os vidros da nossa casa.
Pela janela assisto ao amanhecer,
não durmo desde que me concebi como gente
que ainda mente pra si mesmo
pra esconder a tristeza que sente.
A tristeza que passa pela janela
morre no meu peito;
fugo de solidão agora sinto
do final que está vindo
enquanto olho pelas janelas e vejo:
um arco-íris e as nuvens que se escondem
para dar passagem ao infinito
que pousa em meu peito.

Vestuário
Visto-me de trapos,
de mentiras lavadas
enxugadas e secas
pela exposição ao sol
sol desta tarde de terça.
Banho-me em rios de lágrimas,
poços das caldas brandas;
estigmas do sangue solitário.
Coração que bate
em seu devido horário,
trabalha enquanto é pago
por essa mentira de salário.
A dignidade
Brasil: país de antônimos e de enganadores, país de hipócritas e cegos, país de boa-gente hospitaleira, de políticos selvagens e santarrões. Não enxergamos nossos próprios problemas, portanto estamos anos-luz de podermos resolvê-los. Mas mesmo assim, nos achamos certos em tentar resolver o problema de outras nações que passam por dificuldades muito grandes, mas sem dúvida, com dificuldade não tão maiores do que as do nosso grandioso país.
Talvez nossa maior óbice em relação ao nosso crescimento enquanto nação esteja na precária administração política do nosso país, além também na falta de educação mais complexa para os nossos cidadãos que não conseguem enxergar a tamanha falta de nexo em determinadas campanhas feitas pelo governo e também por empresas privadas que buscam apenas obter uma forma mais fácil de acúmulo de capital em seus cofres. A tal beneficência acaba por se tornar em malevolência criminosa que apenas as pessoas que tem sua mente fechada não conseguem enxergar.
O que mais tem me incomodado ultimamente são as campanhas de ajuda para as vítimas do maremoto Tsunami, que mutilou e matou milhares de milhares de pessoas principalmente na Indonésia. Campanhas do governo e de empresas como a TIM (de telefonia celular) aparecem na mídia televisiva pedindo ajuda com dinheiro ou mantimentos para as vítimas asiáticas. Qual o problema disso? Nenhum, eu particularmente não sou nenhum egoísta que não se preocupa com o sofrimento alheio. O que eu reclamo é o fato das pessoas se comoverem mais com o tsunami do que com a fome e a falta de perspectiva de vida que assola o nosso próprio país.
Os brasileiros morrem de fome, morrem em desabamentos ocorridos em decorrência da chuva e dos deslizamentos de terra, pois seus barracos não suportam a força da natureza. Uma grande parte das crianças aqui não desfruta da infância, tendo que trabalhar pra ajudar seus pais no sustento, pra isso vão para as ruas lavar carros e fazer seus malabarismos. Mendigos morrem de baixo dos viadutos buscando o mínimo de dignidade que uma pessoa pode querer na vida, a mesma dignidade que a TIM e as outras inúmeras campanhas buscam proporcionar novamente para os asiáticos.
A questão é: A dignidade do brasileiro vale menos do que a de qualquer outra pessoa do mundo? Há quanto tempo a dignidade é uma característica alheia a nós e ninguém faz campanha alguma para ajudar?