


O lago celeste
As flores da primavera estão brotando no ventre da natureza. O verde das tardes nessa época do ano tem um brilho mais intenso do que em qualquer outra e o mundo parece ser tão pacífico se levarmos em consideração apenas esta bela cena.
Pela janela, Sara encara o mundo de um jeito diferente do que ele realmente é, encara o céu azul e infinito sem a poluição e a destruição urbana das metrópoles e as aves que gorjeiam aqui conseguem gorjear em qualquer outro lugar, o que muda é o modo como as pessoas encaram a vivência de tão belos seres que estão presentes em um simples olhar pela janela, mas sua importância nem sempre está presente em uma simples ida ao coração.
- Mãe – diz Sara - como o dia está lindo lá fora! A primavera chegou tão intensa nesta manhã e até mesmo o sol brilha de uma forma diferente. O lago está tão azul como o céu, incrível como ambos parecem refletidos um no outro!
- Acalme-se Sara, é apenas mais um dia como qualquer outro dia no ano. Olhe, não tem nada de mais, tudo está como sempre esteve e sempre estará, o céu continua azul, assim como continua o lago. A única coisa que muda é que as flores desabrocham e melhoram um pouco o aspecto aqui da vila. Mas isso acontece em todos os anos e já nem me surpreende mais.
- Mas mãe, nem mesmo o lindo vôo das andorinhas te agradam aos olhos e ao coração? Olhe como os passarinhos parecem sorrir a todo o momento para nós. Olhe este que se encaminha para perto da janela, parece um Sanhasú! Que cor linda ele tem, não acha? Um azul intenso e tão brilhante!
- Pra mim é apenas mais um pássaro que vem do norte pra cá nesta época, ele sempre passa por aqui e já tive que botá-lo para fora de casa diversas vezes.
- Você não acha que ele só esteve procurando um pouco de atenção e de carinho humano? Já li em um livro que este tipo de pássaro é dócil e muito carente, tadinho! E é tão lindo, adoraria tê-lo como meu.
- Animais assim não devem se misturar com humanos, minha filha – disse sua mãe que já aparentava estar com falta de paciência para com o entusiasmo de Sara.
- Como assim mamãe? A senhora está me dizendo que não aprova o relacionamento de animais com os homens?
- Bem, Sara, pra lhe ser bastante franca, a mim não agrada nem um pouco me misturar com animais. Eles são traiçoeiros, irracionais e não têm sentimentos. Portanto, é inútil ter animais de estimação, para mim é totalmente desnecessário.
- Nossa, a senhora está parecendo uma pessoa sem um pingo de amor e sensibilidade no coração!
- Sara! – grita sua mãe – Respeite-me!
- Tudo bem, desculpe-me.
Neste momento Sara fecha as janelas como se um súbito de desânimo tenha contagiado todo o seu ser. A escuridão do seu quarto fechado nada tinha a ver com o paraíso que reinava do lado de fora. Pensando nisso e em tudo o que sua mãe falou ela começa a escrever em seu diário, buscando refletir sobre as verdades dessa vida. Sem querer, ela começara a filosofar dentro do seu universo, querendo motivos claros para saber o porquê de sua mãe estar tão desanimada com as alegrias e a beleza do mundo, com coisas que nos encantam e que deixamos de lado para nos dedicar-nos a coisas tão fúteis e sem nexo algum.
Ela, que tinha apenas treze anos, sentia-se mais inteligente do que sua mãe de quarenta e quatro em determinadas coisas. E isso era tão estranho e confuso!
- Como isso pode ser? – perguntava-se ela – Em certas coisas me parece que os adultos regridem, parece que a felicidade e as alegrias simples da vida que sentimos quando crianças vão desaparecendo enquanto crescemos e nos tornamos adultos. Será que eu também serei assim?
Ela fecha seu diário e abre a porta daquele infinito mundo que pedia pra ser cuidado e apreciado. Caminha pela sala e enxerga sua mãe assistindo televisão na sala, era seu principal passatempo. Sara não gostava de ficar na frente daquilo assistindo aquelas coisas. Nada lhe interessava naquela televisão. Sentia-se tão diferente de todos os adultos que conhecia.
Ela abre a porta de sua casa e sente a luz do sol penetrando em sua face, enxerga as montanhas: aquele seu horizonte é tão belo e paisagístico. Queria ter pra sempre aquela imagem nos seus sonhos e também na sua realidade. Se pudesse, contemplaria para sempre aquele momento.
Caminhou até à árvore que fica próxima de sua casa e observou seu jardim todo florido com a visita de dois beija-flores lindos. O sanhasú ainda estava ali caminhando por entre o canteiro de rosas e o de orquídeas que ela mesma tinha plantado, admirando aquilo que os homens não conseguiam admirar. Se dependesse de sua mãe todas aquelas vidas ainda estariam esperando pela concepção.
Em curtos passos ela se aproxima de sanhasú, o lindo pássaro azul que mais se parecia com uma poesia linda em forma física do que co aquela descrição dada por sua mãe: traiçoeiro e irracional.
- Traiçoeiro e irracional? – Sara se descontentava com aquela descrição infeliz – Sanhasú não pode ser irracional, e se for, eu sou tanto quanto ele. Se ser irracional é poder admirar estas rosas, então eu sou completamente desmiolada. Pra mim, tamanha beleza é inigualável.
Neste momento Sara sente uma tristeza amarga e profunda. Não quer de jeito algum que o tempo leve embora aquela admiração pelo o que realmente é belo neste universo, não quer perder nunca a sua empolgação com o brilho do sol e das estrelas, com as noites enluaradas e românticas, com as rosas, margaridas e orquídeas de seu jardim, com as montanhas no horizonte, com a transparência daquele lago azul celestial e a beleza eterna daquele sanhasú.
Sara pegou o pequenino pássaro e o pôs em seu colo e sentou-se no banquinho que fica de frente para o lago celestial. Lá ela se sentia mais próxima dos deuses. Contemplou tamanha beleza que brilhava nos olhos de quem o via e pôs-se a dizer para o pequenino pássaro alegre e radiante em seu colo:
- Sanhasú, carregue-me para o seu mundo e faça-me nunca perder estes olhos que são teus também. Não me deixe nunca abrir a porta do mundo absurdo que os homens vivem, pois deste não quero sair nunca. Neste universo que vivemos o belo sempre será belo, o amor sempre será amor e as flores sempre serão flores. Por favor, Sanhasú, não me deixe cair nas desgraças dos homens – pedia Sara com lágrimas nos olhos que caíram no corpo do pequeno pássaro– Não me deixe, por favor!
Batendo as asas e sentindo a sensibilidade e a emoção de Sara, Sanhasú abre as suas asas, solta-se dela e sobe em direção ao céu, pára e mergulha em direção àquele outro céu que se formou na frente de Sara, no lugar do lago celestial. Ele volta de encontro à menina que encantada observa o paraíso diante dos olhos, onde todos vivem a contemplar a beleza, a pura e qualquer simples beleza presente diante dos nossos olhos.
- Sanhasú, como...como fez isso? Como tudo ficou tão perfeito quanto o perfume de jasmim e os versos da lua? Isso é simplesmente fabuloso!
O pequeno pássaro olhou para Sara e com um lindo sorriso estampado no bico pôs-se a dizer em direção à alma daquela linda menina:
- Sara, essa é a nossa real realidade! As pessoas aptas a viverem no mundo real se transportam dos sonhos pra cá. E pra ganhar a passagem só de ida para este mundo em que tudo é belo e perfeito basta apenas derramar a mais pura e sincera lágrima da tristeza em relação ao mundo em que você vivia antes. Esta lágrima nos mostra a sua sincera infelicidade em viver no mundo em que os homens se acham os seres mais racionais do universo! Este pensamento que plantamos neles é apenas uma forma de selecionarmos aqueles totalmente puros de coração e de alma que estão aptos a contemplarem por toda a eternidade o mundo mais belo imaginável, onde não existe guerra nem ódio, vingança ou repressão. Onde não há mais lágrimas de infelicidade e nem tristeza. Onde ninguém é superior a ninguém!
- Este é o meu lugar – sorri Sara.
Escrito por Rafael Guedes de Almeida em 02/01/05